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Observatório História e Saúde realiza I Seminário de Pesquisa entre seus integrantes permanentes

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Foto: Juliana Passos

Equipe OHS

No último dia 11 de junho, os pesquisadores do Observatório História e Saúde (OHS), vinculado ao Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, realizaram o I Seminário de Pesquisa para apresentação de pesquisas e ações de divulgação em andamento. O encontro foi motivado pelo crescimento do Observatório. “Estamos em um momento de grande produção e contentes com a ampliação do número de integrantes. Ao mesmo tempo, precisamos deste momento para melhor organizar nossas frentes de trabalho”, afirmou o coordenador do Observatório, Carlos Henrique Paiva.

Os projetos desenvolvidos pelo Observatório reúnem investigações sobre a construção histórica das políticas públicas de saúde em seu sentido ampliado, incluindo o tempo presente e sem se limitar aos atores institucionais. Essa diversidade de fontes — documentais, orais e institucionais — também se reflete na multiplicidade de produções em curso. Entre livros e capítulos recém-publicados, estão previstas ainda uma série biográfica sobre personagens centrais da Reforma Sanitária, além de um documentário e uma exposição dedicados aos 35 anos do DataSUS.

Memória e biografias da Reforma Sanitária

Entre os trabalhos destinados ao público amplo está a consolidação de um projeto editorial em parceria com a editora Hucitec, a coleção Personagens da Saúde Coletiva. O primeiro volume, dedicado a Hésio Cordeiro, foi lançado em 2022 pela Casa de Oswaldo Cruz (COC) e posteriormente republicado pela Hucitec.

A obra reúne entrevistas concedidas pelo precursor do SUS em diferentes momentos de sua trajetória. Médico e acadêmico, Cordeiro presidiu o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps) entre 1985 e 1988, período em que adotou princípios da Reforma Sanitária na gestão da instituição. O livro está disponível para download e conta também com uma exposição virtual no site do Observatório.

O próximo volume será dedicado ao sanitarista Jairnilson Paim, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA). A pesquisa reuniu 33 horas de entrevistas com o biografado, além de ampla documentação histórica, resultando em uma obra rica em iconografia e notas explicativas voltadas ao público não especializado.

O trabalho é desenvolvido pelos pesquisadores José Roberto Reis, Carlos Henrique Paiva e Luiz Alves. Em outra frente de pesquisa relacionada, Reis investiga a ditadura militar, com foco em como o golpe de 1964 interrompeu propostas sanitárias que vinham sendo formuladas no período, como as apresentadas na Terceira Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1963, que já antecipavam elementos posteriormente incorporados ao SUS. Em livro recém-lançado, Reis e Paiva discutem as transformações na discussões sobre atenção à saúde em dois capítulos.

Produção de dados

A construção de informações sobre saúde pelos próprios destinatários das políticas públicas apareceu em diferentes pesquisas apresentadas no seminário. Uma delas aborda a articulação entre coletivos de comunicação comunitária e promoção da saúde em favelas do Rio de Janeiro, um dos eixos de atuação da pesquisadora Cristiane d’Avila, que também se dedica à difusão de arquivos sob a guarda da Casa e à produção de jogos voltados para a divulgação científica da história das ciências e da saúde pública.

Um estudo recente coordenado por d’Avila identificou que esses coletivos atuam na promoção da saúde ao divulgar informações sobre unidades básicas, saneamento e violência, temas do cotidiano dessas comunidades. No entanto, um dos principais desafios apontados é a falta de financiamento permanente para esses grupos, que frequentemente dependem de editais pontuais, apesar de produzirem informações utilizadas por empresas e órgãos públicos. Uma parte dessa pesquisa foi publicada recentemente no livro Coletivos, comunicação comunitária e relações raciais: pluralidade de vozes da favela à cidade (Gênio Editorial, 2026).

A reflexão focada nos atores da produção de conhecimento em torno das políticas atuais também está presente nas pesquisas de Alexandre Camargo. Seu trabalho investiga os processos de formação de base de dados e de que maneira os sistemas de classificação e codificação influenciam tanto as estatísticas governamentais, quanto a capacidade de ação dos sujeitos envolvidos, com ênfase especial para a genealogia da produção de dados étnico-raciais.

Camargo é um dos organizadores do livro Números em Ação: desvendando atores, práticas e infraestruturas de quantificação (Hucitec, 2026), que examina a trajetória de pesquisas institucionais, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). O capítulo escrito por Lucas Page Pereira evidencia que atributos como neutralidade e objetividade foram construídos historicamente, como resultado de acordos e tensões entre técnicos, gestores e agentes políticos. A incorporação institucional de novos indicadores também aparece em artigo produzido por pesquisadores do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), que desenvolveram um índice voltado à avaliação da eficiência de operações policiais.

Doenças crônicas e políticas públicas

Outra frente de investigação que evidencia o papel dos movimentos sociais na construção das políticas de saúde e na produção de conhecimento científico é conduzida por Juliana Manzoni. Ela estuda a doença falciforme e a evolução das estratégias de cuidado desenvolvidas para essa condição. A doença é provocada por uma alteração genética herdada de forma hereditária que leva os glóbulos vermelhos do sangue, responsáveis por transportar oxigênio, a ficarem mais rígidos. A condição dificulta a circulação do sangue e a passagem do oxigênio, o que provoca dores crônicas e, em alguns casos, anemia.

Além do contexto brasileiro, seus estudos exploram experiências de cooperação em saúde na África, na América Latina e no Caribe, com ênfase nos diálogos do Sul Global e na participação dos movimentos sociais.

Em uma perspectiva mais ampla, Luiz Alves investiga como as classificações das doenças crônicas foram construídas ao longo do século 20 e de que forma elas produzem mecanismos de inclusão e exclusão no planejamento sanitário. A pesquisa procura compreender como mudanças nos sistemas de classificação influenciaram a formulação de políticas públicas. Entre os efeitos observados está a tendência de associar as doenças crônicas apenas às enfermidades não transmissíveis, deixando em segundo plano condições que permanecem relevantes no país, como tuberculose, sífilis e HIV/Aids.

Atenção primária sob o olhar do Sul Global

Investigar os parâmetros adotados pelos serviços de atenção primária relacionados ao envelhecimento estão no centro da pesquisa desenvolvida por Lina Faria, que tem larga experiência com a temática de violência. A pesquisa parte de dois períodos distintos: uma fase marcada por avanços sociais e redução da pobreza e outra caracterizada por crises econômicas e retrocessos políticos. O objetivo é compreender como essas transformações estão relacionadas às desigualdades e à saúde mental das populações, especialmente durante o processo de envelhecimento.

A comparação entre diferentes modelos de organização dos sistemas de saúde permite avaliar o papel da atenção primária na promoção da equidade e na ampliação do acesso ao cuidado. A proposta da pesquisadora é analisar essa trajetória em países da América Latina, como Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Uruguai, México, Venezuela e Cuba, observando como diferentes contextos políticos e econômicos moldaram as condições de vida e saúde entre 2000 e 2022.

A dimensão histórica da atenção primária também está presente nas pesquisas de Carlos Henrique Paiva. Ao investigar a trajetória da saúde pública no estado do Rio de Janeiro, o pesquisador busca compreender como os processos históricos influenciaram a construção das estruturas de gestão e coordenação da atenção primária no SUS. Entre os temas analisados estão a massificação da atenção primária na capital fluminense a partir de 2009, as relações entre os diferentes níveis de governo e os desafios históricos de integração entre a capital e os municípios do entorno.

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